22 Comentários
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Avatar de Fabio Monteiro de Moraes

Excelente Análise! É justamente a ausência de uma crítica ancorada na economia política, que muitas vezes leva a lente decolonial reduzir a prática política à reivindicação de representatividade formal nos espaços hierarquizados na-e-pela estrutura capitalista.

Avatar de Silvio Almeida

Obrigado pela leitura e comentário, Fábio.

Avatar de Luis Santos

Professor Silvio, li seu artigo e entendi as razões de não ser decolonial. Confesso que senti falta de uma menção ao pensamento contracolonial de Nego Bispo, visto que ele também critica o conceito decolonial. Além disso, ele o faz a partir de uma vivência que parece questionar o próprio método (ou rigor metodológico) que o senhor defende. Me parece um bom contraponto, um outro olhar crítico.

Em entrevista ao professor Walter Omar (UERJ) há alguns anos, Bispo faz uma distinção muito clara dizendo que a educação formal é um processo de 'adestramento' que nos molda para servir ao sistema e propõe que ele seja substituido pela 'criação', que é o saber orgânico de quem sabe fazer sua própria casa, sua roça e sua música sem precisar de intermediários acadêmicos.

Enquanto o senhor afirma que a compreensão do mundo exige mediação teórica e trabalho conceitual, ele critica os intelectuais que agem como gestores de trajetórias alheias e que vendem dificuldades para oferecer facilidades. Gosto dessa critica corajosa e frontal que ele traz e do argumento de que os quilombos continuam a resistir a tudo isso.

A entrevista: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/transformacao/article/view/17036

Minha pergunta sincera (e que talvez caiba na parte 2) é: como o marxismo pode dialogar com as bases considerando essa distinção entre o ensinar (adestrar) e o criar (viver)? O senhor não teme que, ao exigir uma densidade analítica, sua crítica acabe se tornando exatamente o que Bispo denunciava: um saber que distancia o povo de sua própria capacidade de criar a vida?

Obs.: participo de alguns coletivos como a Soberana e o Nucleo de Tecnologia do MTST e essas duvidas/desafios me são constantes.

Parabéns pelo artigo e obrigado por continuar a compartilhar e nos fazer refletir.

Avatar de Silvio Almeida

Agradeço muito o comentário e as referências ao Nego Bispo. A crítica que ele faz à educação formal como processo de adestramento aponta para um problema real: as instituições de ensino muitas vezes moldam subjetividades ajustadas à ordem existente. Também concordo que os saberes enraizados na experiência de comunidades que resistiram à expropriação têm valor histórico, político e cultural inegável.

Minha divergência não é em relação à importância desses saberes, mas ao estatuto que lhes é atribuído. A experiência histórica produz conhecimento, sem dúvida, mas isso não elimina a necessidade de mediação conceitual quando se trata de compreender estruturas que operam em escalas muito mais amplas — como o capitalismo global, os Estados, os mercados financeiros e as formas jurídicas que organizam a dominação contemporânea. Não vejo, portanto, uma oposição entre saber “orgânico” e saber teórico, mas níveis distintos de compreensão.

Sobre a pergunta de como o marxismo pode dialogar com as bases, acho que ela é fundamental. O marxismo, de fato, muitas vezes se academizou e se distanciou das experiências concretas de vida, e isso é um problema. Mas ele não nasce como um saber externo às pessoas. Ao contrário, surge da tentativa de compreender teoricamente experiências históricas de exploração, trabalho e conflito que atravessam a vida comum. Quando se fala em “práxis”, trata-se justamente da unidade entre teoria e prática: a teoria nasce da experiência social e volta a ela, ajudando a torná-la inteligível.

Talvez, então, a questão não seja “levar” o marxismo às bases como algo pronto, mas construir mediações entre a experiência vivida e a análise das estruturas que a organizam. Sem a experiência, a teoria vira abstração vazia. Mas sem teoria, a experiência pode não conseguir nomear as forças que a atravessam. Vejo o marxismo, nesse sentido, não como substituto dos saberes produzidos na vida, mas como instrumento para ampliá-los, conectando o que é vivido localmente às dinâmicas mais amplas da sociedade.

Avatar de Luis Santos

Muito obrigado professor, fez total sentido pra mim. 💛

Avatar de RODRIGO DE AZEVEDO LOBO

Bom dia mestre, li sua análise e achei muito pertinente, deixo aqui uma crítica fraterna:

Por que a crítica ao decolonial não pode se tornar um fechamento do materialismo histórico

1. O debate que se reabre e o problema do método

Nos últimos dias, o texto “Por que não sou decolonial”, de Silvio Almeida, recolocou em circulação um debate decisivo sobre método, colonialidade e crítica da economia política. Trata-se de uma intervenção intelectualmente séria, que merece enfrentamento no mesmo nível. No entanto, ao buscar delimitar os limites do pensamento decolonial, a argumentação incorre em um risco clássico do campo crítico: transformar a defesa de um método em sua cristalização.

O problema não está em afirmar a centralidade da crítica da economia política, mas em fazê-lo a partir de uma posição defensiva, como se o marxismo precisasse ser protegido da história concreta que ele próprio se propôs a explicar.

2. O materialismo histórico como método aberto e histórico

O marxismo não se apresenta, desde sua origem, como um sistema fechado de categorias, mas como método histórico-dialético. Isso significa que suas categorias não são universais abstratas, mas determinações históricas que se transformam conforme o movimento real da sociedade.

Lenin já advertia que o marxismo não é um dogma, mas um guia para a ação. Essa afirmação não é retórica. Ela indica que o método se desenvolve ao ser confrontado com formações sociais distintas daquelas que lhe deram origem. Sempre que o materialismo histórico avançou, foi porque se deixou atravessar por contradições novas, especialmente aquelas emergentes do mundo colonial, dependente e racializado.

Tratar o marxismo como um conjunto acabado de respostas é negar sua própria base dialética.

3. Capitalismo, colonialismo e processos de racialização

A experiência negra e colonial não pode ser pensada como elemento externo ou secundário à formação do capitalismo. Ela é constitutiva de sua lógica histórica. A expansão do capital, desde a acumulação primitiva, organizou-se por meio da expropriação colonial, da escravidão racializada e da produção sistemática de hierarquias entre povos e corpos.

Os processos de racialização não operam apenas no plano ideológico. Eles estruturam a divisão internacional do trabalho, a superexploração da força de trabalho nas periferias e a produção diferencial da vida e da morte. Cedric Robinson, ao formular o conceito de capitalismo racial, não adiciona raça ao marxismo. Ele demonstra que o capital sempre se organizou por meio de diferenciações raciais herdadas e reconfiguradas a partir das formações sociais europeias.

No Brasil, Clóvis Moura mostrou que a escravidão não foi um resíduo pré-capitalista, mas um elemento central da formação do capitalismo dependente. Fanon, por sua vez, revelou que, nas colônias, a estrutura de classe se apresenta mediada diretamente pela raça e pela violência colonial, exigindo uma análise que não pode ser reduzida ao modelo europeu clássico.

4. Colonialidade e crítica da economia política

A crítica à colonialidade torna-se problemática apenas quando se autonomiza da análise das estruturas materiais. Mas descartá-la em nome da pureza metodológica empobrece a própria crítica da economia política. Colonialidade nomeia a persistência histórica das formas de dominação colonial no interior do capitalismo contemporâneo, especialmente no plano do Estado, do saber, da subjetividade e da organização do trabalho.

Quando articulada dialeticamente ao materialismo histórico, a colonialidade não substitui categorias como valor, mais-valor, exploração ou acumulação. Ela contribui para compreender como essas categorias se realizam de forma diferenciada nas formações sociais periféricas.

O erro não está na crítica epistêmica em si, mas em sua separação das determinações estruturais. O erro oposto é negar que o plano epistêmico seja parte constitutiva da reprodução social.

5. O falso dilema entre ortodoxia e culturalismo

Colocar marxismo e decolonialidade como polos excludentes produz um falso dilema. De um lado, corre-se o risco da ortodoxia, que transforma o método em doutrina e recusa a história viva. De outro, o risco do culturalismo, que dissolve a estrutura em experiências fragmentadas e moralizações.

A tarefa teórica é mais exigente. Trata-se de articular análise estrutural, mediações históricas e experiência concreta, sem sacrificar nenhuma dessas dimensões. Sem teoria da totalidade, a crítica se fragmenta. Sem atenção à formação colonial e racial do capitalismo, a totalidade se torna abstrata.

6. Conclusão: método, história e transformação

A fidelidade ao materialismo histórico não se mede pela defesa de suas formas consagradas, mas pela capacidade de fazê-lo responder às contradições reais do presente. O marxismo só permanece vivo quando se reconhece como método em disputa, atravessado por conflitos históricos e aberto à transformação.

Congelá-lo é traí-lo.

Colocá-lo em movimento é levá-lo a sério.

Avatar de RODRIGO DE AZEVEDO LOBO

Essa crítica coloquei em minha página e agora aqui.

Saudações fraternas!

Avatar de Silvio Almeida

Olá, Rodrigo. Sua crítica é excelente. Mas eu acho que estamos no mesmo caminho e, salvo engano, eu faço afirmações bem parecidas no meu texto. Há um ruído neste debate: as pessoas estão confundindo a afirmação de que o marxismo- justamente pelas características que você aponta - permite a apreensão da totalidade e as teorias decoloniais não, com a afirmação de que haveria uma hierarquia entre saberes científicos e saberes tradicionais. É o marxismo e sua característica “heurística” que nos permite sair deste falso dilema que hierarquiza saberes. Ainda tem a parte II do meu texto. Abraço

Avatar de RODRIGO DE AZEVEDO LOBO

Indico a leitura do meu livro publicado recentemente.

Ubuntu.

https://loja.uiclap.com/titulo/ua149264/

Avatar de RODRIGO DE AZEVEDO LOBO

Aguardo ansiosamente a segunda parte!

Debate como esse me movem e me tira de uma zona que muitas das vezes nos aprisiona o pensar crítico, estou totalmente aberto a ouvir e avançar no pensamento crítico, vamos juntos!

Avatar de RODRIGO DE AZEVEDO LOBO

Considero a análise bem ajustada. Minha crítica não é ao método em si, mas ao risco de uma distorção da análise histórica e dialética quando determinados pontos não são bem delimitados. Em contextos de grande tensão social e política, retirar do debate aquilo que nos faz crescer teoricamente é um erro. Quando a análise marxista não é conduzida com rigor, ela corre o risco de se tornar dogmática, o que enfraquece sua capacidade de produzir conhecimento crítico.

Vivemos um cenário marcado por debates rebaixados, nos quais a dimensão moral, que é relevante, mas não determinante, acaba por contaminar a análise estrutural. Qualquer imprecisão teórica passa a ser instrumentalizada por grupos que negam o papel do antagonismo e da diferença como motores do desenvolvimento histórico e das grandes formulações teóricas.

Gostaria ainda de pontuar que o pensamento decolonial é fundamental para compreendermos os movimentos históricos do capitalismo e os processos de racionalização que o sustentam. Vejo aí um dos principais desafios contemporâneos do marxismo: atualizar-se teoricamente para enfrentar de forma consistente o problema histórico do racismo, sem perder seu núcleo crítico.

Nesse sentido, não opero a partir de uma escolha excludente entre um campo e outro. Ainda que isso possa parecer contraditório para alguns, consigo desenvolver análises marxista-leninista incorporando uma leitura histórica e dialética decolonial, sem abandonar o método materialista nem dissolvê-lo em moralismo ou culturalismo.

Avatar de Gustavo M.

Achei o texto bem interessante. Já havia me deparado com ideias "decoloniais" na universidade e achado uma besteira. Você mostrou teoricamente porque essas são limitadas. É pós-modernismo, é a recusa da ciência, da teoria. É a defesa da "vivência", experiência individual, ou seja, do empirismo, como se fosse algo novo, mas, na verdade, é velho. São concepções epistemológicas que acabam em identitarismo, relativismo, representatividade. Tudo muito ao gosto do sistema. São teorias pequeno-burguesas.

Avatar de kwamematsimela

Silvio, bom dia! Gostei do texto. Na parte dois, já que vai trabalhar com experiências, se possível coloque sua experiência institucional, sua atual experiência de luta política e coletiva como forma também de analisar e dar práxis a sua defesa de não decolonial. Os efeitos que ela surte na realidade da população e afins. Estudo de caso mesmo. Combinado? Isso tem faltado nos textos marxistas.

Avatar de Silvio Almeida

Agradeço a sugestão, mas creio que ela confunde os registros do debate.

Este ensaio examina divergências teóricas entre tradições intelectuais. Inserir “minha experiência institucional” como validação do argumento seria curioso: imagino que você não exigiria de Walter Mignolo que relatasse suas experiências administrativas na Duke University para validar suas teses sobre decolonialidade, nem de Judith Butler que narrasse suas reuniões departamentais em Berkeley para legitimar sua teoria performativa de gênero. Da mesma forma, não seria o caso de eu falar das minhas experiências como homem negro, professor, advogado de movimentos sociais e comunidades quilombolas, fundador do Instituto Luiz Gama, formulador de políticas públicas e ex-Ministro de Estado.

A práxis não se demonstra por autobiografia em nota de rodapé, mas pela capacidade da teoria de iluminar processos históricos concretos e orientar lutas coletivas. É exatamente isso que a Parte II do ensaio faz ao examinar América Latina, pandemia e crises contemporâneas.

Quanto à observação de que 'isso tem faltado nos textos marxistas': recomendo a leitura de Lenin, Gramsci, Mariátegui, Cabral, Angela Davis, García Linera.

Avatar de kwamematsimela

Silvio, faço o apelo aos marxistas pq é um grupo que defende a práxis como fundamento da luta política. Os decoloniais são isso mesmo, acadêmicos. Os contracoloniais além da teoria trazem a prática (que como toda campo político pode ser questionado). Não peço sua autobiografia, mas diante dum texto que trará exemplos contemporâneos é fundamental ler os relatos da luta coletiva que vocês pertencem. Os exemplos que você mesmo menciona - Lenin, Gramsci, Mariátegui, Cabral, Angela Davis - fizeram a discussão teória a partir da luta prática que tais autoras/es estavam inseridas/os. Porém, vocês na atualidade não elaboram tais textos da mesma maneira. Aí resta uma discussão estritamente teórica, onde exemplos dum passado vitorioso são trazidos ou exemplos de terceiros que, embora sejam interessantes, não podem ser igualados ao contexto brasileiro. Mas, se o marxismo é a resposta para os dilemas atuais precisa elaborar textos que tragam a prática da luta coletiva de vocês. É indispensável. O campo político de vocês sempre defendeu amarrar o pensar e agir, além de tentar mudar a realidade, não? Caso contrário, me parece que somente está presente o marxismo academicista, uma das característica que vocês não concordam com os estudos decoloniais.

Avatar de Silvio Almeida

Sua crítica tem um problema fundamental: você está comentando sobre um texto que ainda não leu integralmente. A Parte II faz exatamente o que você reclama estar ausente.

O que a Parte II analisará:

∙ Bolívia e Equador (governos progressistas, extrativismo, contradições)

∙ Cotas raciais no Brasil (inclusão vs. transformação estrutural)

∙ Lava Jato e instrumentalização do judiciário brasileiro

∙ Pandemia (ciência, Estado, capacidades materiais)

∙ Ofensiva conservadora na América Latina

São processos contemporâneos, muitos brasileiros, não ‘passado vitorioso’ nem ‘exemplos distantes’. É análise concreta de conjuntura concreta — exatamente o que você diz faltar.

Sobre a assimetria: você aceita que decoloniais sejam ‘acadêmicos’, mas exige de marxistas prova militante. Por quê? Ou o critério vale para todos, ou não vale para ninguém.

E qual o problema em ser acadêmico?

Sobre os clássicos: Lenin escreveu O Imperialismo em biblioteca (exílio), Gramsci escreveu Cadernos na prisão (isolado), Angela Davis escreveu Mulheres, Raça e Classe como professora universitária. Nenhuma dessas obras é relato autobiográfico. Seu padrão não foi cumprido nem pelos clássicos.

Sobre práxis: Você confunde práxis com relato de práxis. Analisar Lava Jato, pandemia e golpes para extrair lições estratégicas É práxis. O que não há é memoir — escolha de gênero textual, não deficiência.

Leia a Parte II. Depois conversamos sobre o que realmente está presente ou ausente no texto

Avatar de kwamematsimela

Silvio, é simples. Todos os clássicos referidos as pessoas estavam implicadas na luta. Refletiram a partir da prática coletiva que fizeram parte. Isso ocorre por serem marxistas. O que espero dos seus textos é a mesma coisa. Como a organização que você pertence disputa a realidade daquilo que debate.

Essa parada de "analisar [...] para extrair lições estratégicas É práxis." todo texto marxista ressalta, agora discorrer como a prática marxista da organização que vocês pertencem, no nosso contexto, influencia nas experiências contemporânea de luta é o X da questão. Espero que ver isso no seu segundo texto, caso ache interessante para a conjuntura.

Não tem problema ser acadêmico, mas os marxistas reivindicam mais que isso. Os decoloniais não. Por isso são dois pesos e duas medidas.

Avatar de Silvio Almeida

Seu problema é achar que exista alguém neste mundo que não esteja “implicado”. Também é importante saber o que entende por “luta”. Provavelmente você tem uma visão muito específica e restrita do que é luta. Qualquer pessoa que vive sob a exploração, seja em que posição estiver, está inserido na coletividade, é um ser social. Ninguém está do lado de fora da “sociedade”. Seu argumento base é exatamente o que denuncio no meu texto. Você reduz a validade de uma reflexão intelectual à experiência pessoal e uma suposta “ação pelo coletivo”. É um equívoco grave, que separa teoria e prática e atribui ao pensamento um caráter meramente abstrato, como se fosse possível pensar “fora da sociedade” e para além das “lutas”. Eu não sou o melhor exemplo para você cravar o seu ponto dada a minha história de vida, por isso, não espere ver em nenhum dos meus texto a validação de suas visões de mundo.

Avatar de kwamematsimela

Luta é ação organizada (reflexão crítica, composição de tática e estratégia, mobilização de afetos, etc), coletiva/de massa (muitas pessoas envolvida no propósito) e concreta ( que transforme a realidade). A luta, portanto, é o que muda a sociedade, não? E logo, devemos fazer parte dela e forjar análises teóricas a partir disso, não? Eu sinceramente, irmão, achava que isso era algo superado na campo de luta marxista. Mas percebo um certo relativismo de vocês para, no fim, descrever textos observando o real. Abraço!